Que hei-de escrever?
E porque não isso mesmo: por onde vem a ser o desejo de escrever, melhor, que NECESSIDADE pretende a escrita colmatar?
A resposta é bastante nítida e plausível. A única coisa que está em questão – aliás, a única coisa que está SEMPRE em questão – para qualquer ente que sinta o ABSURDO, e não apenas que o pense como exercício retórico – se apenas o pensar tanto melhor para ele –, é a necessidade de escapar a esta dor fértil da ineficiência da existência humana – perdão, pode ser que esta existência seja senhora de surtir efeito algum, neste caso o termo mais correcto seria INUTILIDADE.
E que fuga será mais nobre no gesto, do que as linhas, ou não-linhas, de uma folha em branco. Ó pórtico dos pórticos, tu que és a nívea e crível ponte para o Fado…
Todavia os artistas de segunda – também o maestro destas palavras andará por aqui –, que na música apenas experimentam o esclavagismo daquele que apenas assiste e que apenas Sonha. Escritores, ou filósofos, ou, mais altos ainda, POETAS, esses que permanecem agrilhoados à panorâmica dos factos gramaticais destituídos de qualquer REALIDADE , assim como às armadilhas da linguagem que os findam, encontram a tinta como trilha e veículo de fuga. Como justificação da existência ou, pelo menos, como um sofrer-o-menos-possível. Mesmo que apenas enquanto ILUSÃO.
Mas… sejamos honestos, haverá algo sequer para além da ILUSÃO?

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